Série DMIC Negro vivo

Nesta primeira matéria, de uma série de três que lançaremos em primeira mão no portal mundoquandu.org a partir de hoje, vamos falar sobre a vida do jovem Diego dos Santos Viana, o Dmic Negro. A segunda matéria irá tratar sobre o despertar para as artes, o desenvolvimento e o legado artístico e exemplo de vida deixado por Dmic. Por fim, na terceira matéria, será abordado o assassinato do jovem happer, bem como, os desdobramentos e atual situação da investigação.

Um pouco sobre a vida de Dmic Negro

Filho muito aguardado e desejado, Diego dos Santos Viana, nasceu no dia 7 de março de 1993, no Hospital Maternidade São Camilo, Itapipoca, Ceará, pesando três quilos e seiscentos gramas e aproximadamente 50 centímetros. Diego teria hoje 29 anos. Seus pais são Elziran Viana e Antônio Viana. Diego foi o segundo filho de quatro irmãs.

A primeira gravidez de dona Elzira deu certo, porém, em razão de uma eclâmpsia, foi orientada a postergar os planos de uma nova gravidez. Passados três anos, veio a surpresa de uma segunda gravidez. Estava a caminho um menino.

Nasceu Diego, de parto natural e rápido! Para o pai, o senhor Antônio Viana: “quando ele nasceu foi alegria grande… uma benção de Deus”. Por ter uma forte admiração pelo atleta argentino Diego Maradona, batizou o filho com o mesmo. Desejava que o filho se tornasse, igualmente,  um grande jogador de futebol.

No decorrer do desenvolvimento da criança, Diego foi crescendo e Antônio, treinador de futebol, sempre incentivou o filho à prática do esporte. Apesar das investidas de seu Antônio, Diego nunca foi muito afeiçoado ao futebol e, certo dia, revelou ao pai que não gostava de futebol e que tinha outra missão.

Aos poucos os pais e demais familiares foram percebendo que Diego veio com um dom diferente e que o futebol não era mesmo para ele. Aos 12 anos começam a perceber o gosto do adolescente pela dança, pela poesia e pelo canto. 

Em paralelo às outras atividades que desenvolvia, Diego gostava muito de videogame, passatempo no qual poderia se dedicar o dia todo e que o fazia esquecer do tempo.  Essa foi por muitos anos a sua diversão preferida.

Os vínculos escolares

A primeira escola que Diego frequentou foi a Escolinha Camaleão, uma creche vinculada da Igreja Presbiteriana. Na época, o acesso à educação infantil se dava por intermédio de associações de bairros ou escolas particulares. Sua tia Valda conseguiu uma vaga nessa escola, onde Diego teve sua primeira experiência educacional.  Em seguida estudou em outra instituição, o Fundo Cristão para Criança (CCF), onde concluiu sua alfabetização e se tornou ‘doutor do ABC’. Depois da Escolinha, Diego foi transferido para a Escola João Idálio. Logo nos primeiros dias de aula as professoras detectaram que Diego tinha um problema de vista. Foi então que a família, com ajuda da CCF, providenciou o exame e os óculos.

Diego fez o Ensino Fundamental I na mesma Escola João Idálio. Elziran relembra que ele era sempre elogiado pela professora Lúcia Braga. No decorrer de sua vida estudantil recebeu várias medalhas por bom comportamento e também se destacou com sua poesia. Ele foi um aluno acima da média.

Após a E.E.F. João Idálio, foi pra Escola Pedro Barroso, onde concluiu a etapa do Ensino Fundamental II. 

Por se destacar nas notas e no comportamento, no Ensino Médio recebeu por incentivo do governo do estado dois computadores. Dado o seu desempenho, também foi convidado para estudar no Liceu, mas recusou. Isto porque o ensino seria em tempo integral e ele  não quis deixar de lado seus projetos artísticos. Decidiu, então, estudar na escola Murilo Serpa, completando ali os seus estudos de ensino médio.

A instituição Fundo Cristão para Crianças, atualmente conhecida como Sociedade de Promoção da Família de Itapipoca – SOPRAFI, foi crucial para o desenvolvimento de sua inserção nas artes, visto que tinha cursos de pinturas, desenhos, computação, dentre outros. Sua mãe destaca que o filho fez vários cursos lá, além do suporte financeiro que a instituição concedia para os alunos. Entrando na instituição com 8 anos de idade e saindo com 20 anos. Antônio enfatiza que seu filho aprendeu a desenhar muito bem a partir da CCF, os desenhos chamava atenção pelo traço. Era recorrente o anime Naruto, que Diego tantas vezes retratou.  Já na juventude fez ainda dois cursos de Canto Vocal no Instituto Federal do Ceará (IFCE).

O primeiro contato com o Hip Hop

Segundo relatos de parentes, o interesse de Diego surgiu a partir de uma apresentação que ele viu na praça. Frequentemente, seu primo George o levava para assistir às danças e ele foi se encantando pelo mundo do Hip Hop. O envolvimento com essa expressão artística começou a se dar por volta dos 15 anos. 

Inicialmente, Diego criou vínculos com Mário Júnior, que era instrutor de Hip Hop. Ele passou a participar de treinos de break (dança) no Parque de Exposições de Itapipoca e na escola Monsenhor Tabosa (antigo endereço). A presença de projetos culturais nas escolas também favoreceu o desenvolvimento de sua arte. Por exemplo, a Escola Murilo Serpa dispunha de projetos específicos de Hip Hop.

Na juventude, quando terminava o expediente de trabalho, sempre ia ao Parque de Exposições  treinar break.  Elziran sublinha que o filho dizia “que Itapipoca faltava isso, uma coisa diferente, que atraísse os jovens e que a cultura hip-hop merecia mais espaço na terra do forró ”. Diego mergulhou no mundo hip hop e foi nesse momento em que escolheu um “nome artístico”, como ficou conhecido.

Dona Elziran relata que Diego era muito bem resolvido quanto a sua identidade de raça, na condição de homem negro. Quando as aventuras pela música começaram a ficar mais sérias, escolheu o nome Dmic Negrão, e depois mudou para Dmic Negro. Ele se autodenominava negro. Curioso sobre sua ancestralidade, descobriu que seu avô pertencia ao quilombo Conceição dos Caetanos e também descobriu que tinha ascendentes negros por parte de mãe, que viviam na localidade Canaã (ambos em Itapipoca). Sua identidade foi se fortalecendo.

Sempre que ia fazer apresentações, Dmic convidava seus familiares para assistir.  Sua mãe foi uma figura central pelo apoio e incentivo. A junção do Hip Hop com a poesia e a música, deu sentido à vida de Diego, agora Dmic. Foi por intermédio da arte que ele expressou tudo aquilo que sentia e desejava, para ele e para a sua comunidade.

Projetos, sonhos e trabalhos

Cada vez mais envolvido com a arte, Dmic Negro desejava levar seus conhecimentos para além, criando projetos na comunidade que envolvessem a poesia, o hip hop e a dança, com objetivo de inserir crianças, adolecentes e jovens nas artes, dando voz e oportunidade. Inspirou-se no seu pai, uma liderança esportiva, o mesmo fez projetos voltados para a comunidade, como o Projeto Mais Educação do município de Itapipoca, o qual logrou êxito e desenvolveu o trabalho de canto vocal e hip hop nas escolas.

Ainda no projeto Mais Educação, ele ministrou, no ano de 2017, várias turmas de hip hop na escola Pedro Barroso. Na escola Monsenhor Tabosa, conhecido por Danuzão, teve uma turma de hip hop. Buscou inserir jovens itapipoqueses na cultura de rua, criou junto com vários parceiros, o Slam Poesia de Quinta e a batalha Rimatriz. O Slam se desenvolve em um tipo de competição de poesia falada, ou seja, uma batalha de poesias e de rimas, improvisadas na hora.

Seu principal sonho era tirar as crianças da rua, inseri-las na arte, possibilitando novas perspectivas. Diego havia montado um pequeno estúdio, onde gravou seu primeiro EP LUZ E FÉ. Seu objetivo era  ser reconhecido pela arte e ter a oportunidade de compartilhar sua bagagem cultural com outras pessoas, levando seu amor pela cultura para outros lugares, e assim o fez, é inegável o reconhecimento regional de Dmic na cena do hip hop cearense, em especial no litoral oeste do estado.

Diego estava com planos de viajar para São Paulo e para o Rio de Janeiro. Além dessas cidades, pretendia viajar para Itália, país onde atualmente uma de suas irmãs reside. 

Ao concluir o ensino médio Diego foi morar no Rio Grande do Sul, porém, em função de uma doença, passou somente 3 meses e voltou pra Itapipoca. Assim, com isso se forma de vez no hip hop, nos projetos e conciliando também com o trabalho. Dmic trabalhou por dois anos como operário na fábrica da DASS e também como montador de móveis em diversas lojas de sua cidade. Seu último trabalho foi na empresa Zenir móveis, para onde se deslocava diariamente para diferentes bairros e localidades da região para montar os móveis vendidos pela loja. Foi nesses percursos de ida e vinda que Dmic aproveitava para fotografar os ambiente por onde passava, o seu foco eram as flores, igrejas e pássaros, em um de seus momentos registra um pássaro preto pousado em uma árvore e escreve a frase “preto no topo”. 

Diêgo ainda guardava o sonho de se curar da miopia, ao completar seus 21 anos veio a tona o desejo de parar de usar óculos e realizar a cirurgia da vista, porém seu médico oftalmologista, Dr. Márcio o orientou a não fazer a cirurgia tendo em vista ser nessa idade que o grau se estabilizaria, nesse momento ele já se encontrava com 5,25 graus no olho direito e 5,00 no olho esquerdo. Ele então decidiu que iria usar lentes de contato por facilitar nas suas manobras no break. 

Diego como filho, irmão e companheiro

Seus pais ressaltam como ele era um filho exemplar, por nunca ter se envolvido em brigas ou ter feito nada considerado muito grave. Além de ser muito inteligente, sua irmã Gisele comenta que: “Diego era o nerd da família”, pelo fato de gostar de todas as matérias escolares, não tendo preferência por nenhuma em especial e ser dedicado em tudo o que fazia.

Na família, ele era muito alegre, brincalhão, fazia todos rirem, exagerava nos abraços, abraçando com força e levantando quem ele abraçasse. Muito honesto, sempre gostou de ajudar as pessoas e carregava consigo uma espécie de positividade para todos os momentos. Quando tinha brigas não gostava de ser confrontado e também não insistia nela, fechava a cara e o assunto já se encerrava.

Outra característica que marcava ele, era a raiva que sentia quando estava com fome, sua mãe enfatiza que: “a única coisa que fazia ele sentir raiva, era a fome”. Gisele também falou que seu irmão tinha pontos de vista diferentes de todos, no seu modo de ver a vida, como ele estivesse no “mundo da lua”. Revoltado com o sistema, buscava mudanças e almejava ser uma pessoa revolucionária.

Um capítulo à parte na sua vida de Dmic e que ainda voltaremos a falar foi a relação de amor e companheirismo que ele desenvolveu com Thais Tâmisa, Diego era extremamente apaixonado por Thais e sentia muito orgulho da companheira que o apoiava em sua missão. Thais segue firme na busca por justiça pro seu marido. Nas próximas matérias voltaremos a falar do papel que Thais desempenhou na vida de Dmic.

Diego tinha forte apego pelos animais, sua irmã Elisangélica cita um momento em que um rato entrou na casa e todos queriam pegar e matar, ele pegou e soltou longe, disse que ele não ia matar o rato, que não merecia. Ele não gostava de comentar sobre a morte, geralmente fugia do assunto, quando comentava sobre a morte de alguém, para ele a morte sempre foi um processo natural mas não era um assunto a ser debatido. Encerrava ou mudava de assunto em um piscar de olhos.

Nas próximas matérias vamos tratar do legado artístico e do assassinato de Dmic Negro. Você poderá ler em mundoquandu.info

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