Nesta nova matéria, o portal Mundo Quando traz a história de Maria Gonçalves dos Santos ou “Dona Neném”, parteira e curandeira, moradora do município do Trairi.
Por João Eduardo Altino dos Santos*
Maria Gonçalves dos Santos ou carinhosamente chamada de Mãe Neném foi curandeira, professora e parteira. Durante toda sua trajetória de vida encontrou dificuldades, mas sempre batalhadora conseguiu dar a volta por cima, sendo reconhecida por todos nas localidades de Escondido e Zé Aires, no Trairi, como uma mulher bondosa.
Nascida no dia 25 de fevereiro de 1924, desde cedo aprendeu com o sofrimento a superar as árduas barreiras que a vida a impunha. Logo aos 8 anos de idade foi abandonada pelo seu pai junto com seus irmãos e mãe. Nesse momento teve que ir trabalhar na roça com eles para se sustentarem. Passaram muitas dificuldades, mas em nenhum momento deixaram de ir à labuta. Mesmo com todo esforço diário, resolveu ir estudar, então cursando até a quinta série, mas que segundo ela, “valia muito mais que hoje”. O conhecimento adquirido é “muito mais avançado do que esses meninos de hoje. Se você pegar hoje uma criança e der uma palavra e perguntar quantas sílabas têm a maioria não vai saber. Eu com minha idade que estou, sei”, completou Mãe Neném.
Se casou bem jovem, aos 16 anos, como é comum na região. Em seguida, aos 24 anos fez curso de parteira e começou a ajudar com os partos das mulheres das localidades próximas. Dona Neném lembra, inclusive, o nome da primeira mulher e a criança que ajudou a vir ao mundo, conforme ela mesma relata: “A primeira pessoa que eu fiz um parto foi a Francisca Casimiro. O nome do filho dela é José Casimiro. Isso eu tinha 24 anos. Me lembro como se fosse hoje”. Lembra-se também do último parto que ajudou: “Foi de uma moça chamada Helena. Eu já tinha 87 anos anos. O Filho dela se chama Robert”.
Ao todo Mãe Neném trabalhou 63 anos como parteira sem nenhum caso de óbito. Chegou ajudar a vir ao mundo até 6 crianças por dia, isso mal recebendo incentivo financeiro da prefeitura, ela relata a falta de incentivo quando relembra o único momento em que obteve alguma recompensa material sobre o serviço social realizado: “só fui receber algum incentivo depois de muito tempo trabalhando. Isso só aconteceu porque um médico me pediu junto com outras parteiras para trabalhar no hospital, mas foi ganhando na época apenas 30 reais por mês”.
Dona Neném trabalhava porque amava o que fazia mais do que qualquer outra coisa. Ela sempre foi uma pessoa muito caridosa e nunca cobrou nenhuma ajuda a ninguém para fazer parto. Fazia pelo simples prazer de ver a felicidade no rosto da mãe. Também fazia porque maioria das pessoas que iam até ela não tinha condições financeiras. “Eu nunca iria cobrar de uma pobre mãe, até com condições financeiras piores que a minha para fazer um parto”, reinterou ela.
Além de tudo, trabalhava também como curandeira, procurando ajudar quem a procurava. Sempre teve muita fé, acredita que Deus dá um dom em quem nele acredita, nas suas palavras: “Não basta ter apenas fé. Deus dá a capacidade de curar em quem põe em prática suas palavras, por isso todas as pessoas que me procuraram foram curadas”. Contudo, teve um caso que lhe chamou mais a atenção: “Veio um menino de um vizinho desesperado com muitas dores. As pessoas achavam que não tinha mais jeito, mas chegando aqui eu rezei nele e ele adornou. Quando acordou não sentia mais nenhum tipo de dor”.
* Estudante de licenciatura em Ciências Sociais da FACEDI, Universidade Estadual do Ceará.

